SOBRE O EGITO PARTE III
A Terra Treme no Oriente Médio
Escrito por Lejeune Mirhan
Problemas para Israel. O fortalecimento do Irã
Também sobre isso não tenho a menor dúvida. Quem mais perde neste momento, nesta situação pré-revolucionária ou até mesmo revolucionária, a depender do andamento do processo, é Israel e seu governo reacionário de Benjamin Netanyahu. E essa opinião minha coincide com diversos analistas, em especial M. K. Bradakumar, do Asia Times. E ganha a República islâmica do Irã.
Mubarak é o principal parceiro de Israel. O Egito foi o primeiro país que assinou a paz em separado com Israel, seguido pela Jordânia. Nenhum outro assinou. Tecnicamente, Israel esta em guerra com a Síria e o Líbano, pois confiscou terras desses países (respectivamente as colinas de Golã e as fazendas chamadas de Shebaa). Entre os dias 27 de dezembro de 2008 e 22 de janeiro de 2009, Israel bombardeou sem pena nem dó a Faixa de Gaza. Matou a sangue frio 1,5 mil palestinos, dos quais dois terços crianças, mulheres e velhos, sob o pretexto de atacar o grupo Hamas, legitimo representante do povo palestino. Que fez Mubarak? Ao invés de abrir a fronteira de Gaza para deixar passar alimentos, remédios, materiais de construção pela cidade egípcia de Rafah, acabou fechando-a de uma vez, forçando milhares de palestinos a construir túneis na região de fronteira, reforçando o contrabando e encarecendo os preços.
Já temos notícias que dezenas de diplomatas israelenses e seus familiares já deixaram, há muito, o Cairo. Impera na chancelaria e em geral no governo israelense, um nervosismo excessivo. Isso foi registrado por diversos analistas. Israel sabe que um novo governo egípcio poderá romper o acordo de paz de 1979 e isso fará com que o estado judeu venha a ter que gastar muito mais em armamentos e despesas militares, pois há 32 anos ele desguarnece a fronteira Sul, com o Egito e concentra esforços com a front Norte do país, exatamente onde estão o Líbano, a Síria e Irã. Ruim para Israel isso.
Não tenho dúvidas que Israel vai ficando a cada dia mais isolado. E o Irã que não é um país árabe (é persa), se fortalece a cada dia. Senão, vejamos os motivos que elenquei:
Papeis recentemente divulgado pelo WikiLeaks (Palestinian Papers), revelaram acordos e negociações secretas entre Israel e a ANP, do grupo Fatah, que fizeram enfraquecer ainda mais o grupo de Abbas e fortalecer novamente o Hamas, que tem apoio do Irã e da Síria;
O Hezbolláh acaba de conseguir formar um governo de maioria no Líbano, derrubando o governo pró-EUA e Israel de Saad Hariri; registre-se que tal governo é chamado de Bloco Patriótico e é composto, além do Hezbolláh do sheik Hasan Nasralláh, mais o Movimento Patriótico Livre, do general cristão Michel Aoun, mais o grupo Amal, de orientação xiita, cujo líder é Nabi Berri, presidente do parlamento e pelo Partido Comunista Libanês;
O Irã tem boa influência no governo do 1º ministro xiita do Iraque, Nur El Maliki;
Desde os primeiros momentos, o Irã deu seu total apoio ao levante popular no Egito; Israel entrou em profundo mutismo e silêncio; reflete na verdade o seu imenso pavor de que todos os regimes árabes moderados e pró-Ocidente sejam derrubados no que alguns autores vêm chamando de Revolução de Jasmim ou Primavera Árabe;
O Irã tem profundas ligações com a Fraternidade Muçulmana, que Israel tem pavor que assuma o comando do país (de meu ponto de vista esse agrupamento vai participar do novo governo, mas não defenderá um governo o islâmico; o Egito é fortemente laico);
Todos os fracassos seguidos de Washington de barrar o programa nuclear iraniano para fins pacíficos – apoiado pelo Brasil inclusive – que agora deixa de ser o foco no OM; Israel perde seu discurso central;
A questão palestina e seu estado nacional, a paz volta a ser o centro das negociações e Israel não vai ter como sair disso.
Conclusões preliminares .
É um jogo ainda em andamento. As cartas estão na mesa e os jogadores se posicionando, articulando. Não se pode prever exatamente os resultados. Mas quero arriscar alguns palpites:
1. Obama perde nesse processo. Seu discurso do Cairo em julho de 2009, estendendo a mão para os muçulmanos provou-se uma farsa, uma hipocrisia. Não deu passo algum para respeitar os muçulmanos e os árabes em geral. Insiste em classificar, quase que à revelia da maioria dos países, os Partidos políticos Hamas e o Hezbolláh como “terroristas”; são movimentos de resistência e de libertação nacional;
2. Qualquer governo, por mais moderado que seja, não terá, jamais, as mesmas relações de subserviência com os norte-americanos como sempre teve Mubarak. O que tanto os Estados Unidos sempre tiveram pavor, poderá mesmo acontecer concretamente, que é a participação com destaque da Irmandade Muçulmana no futuro governo egípcio; isso não dará caráter religioso ao governo;
3. Israel sai profundamente derrotado e isolado. Perdeu seu discurso de que o maior inimigo é o Irã, que este precisaria ser derrotado e bombardeado e seu programa nuclear visa a construção da bomba atômica (fala como se ninguém soubesse que tem pelo menos 200 ogivas);
4. Ganham os palestinos, que devem se fortalecer na sua luta e na busca de seu estado nacional. Eu só lamento ainda a existência da divisão entre o Hamas e o Fatah e outras organizações. Espera-se até meados do ano eleições gerais, ou pelo menos municipais;
5. Um novo Oriente Médio será construído e isso é perfeitamente possível. O modelo neoliberal pode sofrer abalos. Deverá crescer a democracia mais ampla, os partidos terão maiores liberdades, bem como a imprensa. Eleições gerais devem ocorrer em curto prazo no Egito e na Tunísia. O OM nunca mais será o mesmo depois desse imenso tremor político ocorrido; mudanças profundas podem ocorrer inclusive nas monarquias da Arábia Saudita, Jordânia, Kuwait entre outras.
De minha parte, espero, com sinceridade que avancem as massas populares, no rumo de uma verdadeira revolução democrática, popular, patriótica e nacional. Que avancem os partidos comunistas e socialistas e de feições populares, independente da confissão religiosa de seus dirigentes. São todos árabes, sejam muçulmanos ou cristãos e mesmo judeus dos 22 países árabes.
Termino este artigo com uma frase de Helena Cobban, de seu blog, muito ferino contra os EUA: “no caso da política de Obama para o OM, são cegos guiando cego e cegos aconselhando cego no salão oval da Casa Branca”, em uma clara alusão a Bill Daley, Ben Rhodes, Tony Blinken, Denis McDorough, John Brennan e Robert Cardillo, assessores e conselheiros de diversos cargos de Obama, todos, indistintamente, militantes fanáticos pró-Israel e à serviço do lobby judaico. Como diz ela, que venham os arabistas de Washington.
PS: esclareço aos leitores que este é um típico artigo de Internet. Ele pode se dar ao luxo de ser longo, mas é datado, ou seja, vale para este momento histórico, em que a terra treme, no sentido político. De um dia para outro, a conjuntura pode ser alterada completamente.
Prof. Lejeune Mirhan, Diretor do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, Sociólogo, Escritor, Arabista e Professor, Membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabe de Lisboa, Colunista do Portal Vermelho e da Revista "Sociologia"
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