quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

SOBRE O EGITO PARTE II - A Terra Treme no Oriente Médio

SOBRE O EGITO PARTE II
A Terra Treme no Oriente Médio


Escrito por Lejeune Mirhan

3. Os que protestam – como dissemos, a oposição vivia momentos de quase total desmobilização; milhares de seus líderes encontram-se ainda encarcerados e muitos foram cooptados pelo próprio regime. A juventude toma, como sempre, a dianteira. No entanto, os repórteres que acompanham de perto as manifestações na Praça da Liberdade, registram que são, além de estudantes e desempregados em geral, operários, a classe média, advogados e juízes, médicos, professores, doutores da mais antiga universidade do mundo, a Al Azhar, camponeses, teólogos, jornalistas e tantas outras profissões. Quanto à sua religiosidade, temos muçulmanos em sua maioria, mas cristãos cooptas. Mas, em momento algum se viu um caráter religioso das manifestações.
Formam-se neste momento por todo o país, os chamados comitês populares. O Partido Comunista Egípcio emitiu nota contundente condenando toda a repressão, conclamando o “Fora Mubarak” e a formação de um governo de unidade nacional. O povo nas ruas grita que “exército e povo são aliados”. O slogan que mais se escuta nas manifestações é “não a outro mandato; não á uma república hereditária”, em uma alusão a possibilidade de Mubarak indicar seu filho, Gamal, para assumir o poder em setembro (em árabe La lil-tamdid; La lil-tawrith). Nas paredes pichadas, como que lembrando Maio de 1968, lê-se “Queremos derrubar o sistema”. Cidadãos comuns, unidos, carregam a bandeira egípcia com orgulho. Quiçá isso retorne e desemboque na volta do nacionalismo e o pan-arabismo das décadas de 1950 e 1960 do século passado. Ouve-se ainda “Mubarak, vá-se para sempre! Mubarak, mostre alguma dignidade! (em árabe isso até rima).

4. A oposição – como tem dito a grande imprensa, parece que a revolução egípcia não tem rosto, não têm líderes, os partidos quase não aparecem. Quero comentar aqui alguns deles:
Associação Nacional pela Mudança – é liderada pelo ex-presidente da Agência Internacional de Energia Atômica, Mohammed El Baradei, Prêmio Nobel da Paz. Baradei, um técnico de prestígio internacional e de carreira na ONU, passou quase 15 anos fora do país. Ninguém atinge um posto desse sem ter sido de confiança quase que absoluta dos EUA. No entanto, nos últimos dois anos de seu segundo mandato à frente da AIEA, Baradei desalinhou dos EUA quanto ao programa nuclear do Irã. Cumpriu um papel positivo, no sentido de afirmar ao mundo que os técnicos da agência não atestavam o programa iraniano com objetivos de fabricar a bomba. É claro, ele é um político moderado, independente. Mas, já esta tentando se cacifar pelo menos neste momento de transição e recebeu autorização de cinco partidos para tentar formar um gabinete de transição; pode emplacar ou não;
Partido Al Ghad – de linha republicana, liderado por Ayman Nour, que disputou com Mubarak a presidência em 2005, sendo esmagado pela fraude eleitoral; de linha centrista;
Partido Wafd – sob a liderança de Al Sayed Al Badawi, de linha liberal e moderada;
Movimento “6 de Abril” – uma organização juvenil, de centro-esquerda;
Kefaya – movimento laico, integrado por sindicalistas e intelectuais de classe média;
Irmandade Muçulmana – disputam apenas o parlamento e nunca passam de 20% dos votos. Seu atual líder é Mohammad Badias. A Irmandade tem estado discreta nas manifestações, mas sabemos que participa ativamente. O Ocidente quer mostrar que é um pavor a tomada do poder pelos muçulmanos, mas isso apenas como forma de jogar terrorismo e preconceito na cabeça das pessoas. Ate porque esse agrupamento não propõe – assim como o Hamas na Palestina e o Hezbolláh no Líbano, nunca propuseram um estado islâmico (o Hamas na sua fundação propunha, mas mudou de posição). Essa Irmandade egípcia, que inspirou todas as outras nos países árabes, é na verdade uma organização moderada na política. Não falam em ruptura com o modelo capitalista e defendem a propriedade privada. É conservadora também do ponto de vista da moral e dos costumes. Presta mais serviços sociais de apoio à população pobre com baixa atuação na classe média de alta escolaridade e com intelectuais;
Partido Comunista Egípcio – fundado em 1922, fará, tal qual o PCdoB, 89 anos. Atua na mais absoluta clandestinidade, tem influência em setores sindicais e estudantis. Possui muitos de seus quadros dirigentes encarcerados, mas atua na linha de frente das amplas manifestações deste janeiro.
Pelo fato da Irmandade ser o agrupamento mais importante na política egípcia, vale a pena saber quais seriam as suas propostas neste momento. Defendem a nomeação de um 1º Ministro interino e que uma comissão de juízes faça uma imediata revisão da constituição e que eleições livres e gerais sejam convocadas para o parlamento e para a presidência. Poderia aceitar o moderado do Baradei na linha de frente desse governo provisório de união nacional.
Mubarak ainda não deu sinais, apesar da pressão popular, da opinião pública e mesmo das pressões norte-americana para uma transição mais abreviada, ainda que controlada, de que vai deixar o poder. Para isso nomeou um vice-presidente. Não poderia ter sido pior, pois indicou um tenente-coronel do exército, vinculado ao setor de espionagem e informações, um homem avesso à democracia e ao processo de transição, conhecido torturador. Parece-nos que isso seria uma decisão parecida com a que tomou o Xá do Irã, Reza Pahlevi em 1978, um ano antes de sua queda e fuga para o mesmo Egito atual, quando indicou um 1º Ministro chamado Shapour Baktiar. Mas, tal manobra não surtiu efeito, pois a partir de março de 1979, uma insurreição popular, dirigida pelos setores mais progressista da sociedade iraniana, derrubou o governo despótico do Xá.

5. A cobertura da mídia – a mídia procurou esconder as manifestações iniciadas em Túnis, capital da Tunísia. De um modo geral, tanto no Brasil, como no mundo, o Oriente Médio é deturpado e mesmo desconhecido. Reforça-se um imenso preconceito contra esse povo e sua religião majoritária, o Islamismo. Estereótipos são reforçados, mostrando-se os muçulmanos como radicais e mesmo terroristas. A ombudsman da Folha, Susana Singer, em sua coluna de domingo, 30 de janeiro, criticou a cobertura do próprio jornal, dizendo que demorou para enviar correspondentes e nunca explicou bem aos seus leitores o significado daquela região do mundo. E agora, recebendo material e despachos das grandes agências, procura ficar na superficialidade e não mostra a questão central, política e ideológica.
Os jornalões brasileiros em particular, só despertaram para enviar correspondentes depois de quase um mês de manifestações e da queda do ditador tunisiano. Descobriram depois de 23 anos na Tunísia e 30 no Egito que ambos os países eram uma ditadura. Chamaram, até uma semana atrás, os respectivos ditadores Ben Ali e Mubarak de “presidente” (sic). E, mesmo quando enviaram correspondentes para a região, estes passaram a cobrir mais os que eles chamaram de atos de vandalismos e saques, desconsiderando o conteúdo político e mesmo revolucionário das manifestações.
Essa mesma imprensa, como diz Fisk, omite que tais saques e vandalismos são feitos por agentes e milicianos ligados ao governo Mubarak, chamados de battagi que em árabe quer dizer literalmente de “bandidos”. São, em sua maioria, ex-policiais, viciados em drogas. Como diz o competente jornalista Antônio Luiz Costa de Carta Capital, “a mídia Ocidental cobre os protestos do Cairo com muito menos entusiasmo do que os ocorridos em Teerã em 2009; protestos só interessam quando são pró-ocidentais e a democracia só convém quando a preferência dos eleitores coincide com os de Washington”. Uma conclusão correta e clara.
6. Ditadores e Legitimidade – ninguém gosta de ditadores. Mas, como disse em longa entrevista que concedi à Rádio CBN de notícias no último dia 30 de janeiro domingo (que o leitor pode ouvir por este link http://cbn.globoradio.globo.com/programas/revista-cbn/2011/01/30/MONARQUIAS-PRO-AMERICANAS-PODEM-SER-AFETADAS-POR-CRISE-NO-EGITO.htm) não se trata de escolher um ditador melhor que o outro. Todos sabem que Saddam Hussein, quando era amigo dos EUA, e bombardeou o Irã em uma guerra absurda em que morreram um milhão de pessoas de ambos os lados, era chamado pela imprensa norte-americana de “presidente” Saddam. Depois que passou a atacar os EUA, passou a ser “ditador” Saddam.
A legitimidade de um governo não provém e nem emana sempre das eleições ditas democráticas nos moldes que conhecemos no Ocidente. A prova disso é que a democracia norte-americana é uma farsa. Praticamente só dois partidos concorrem e só tem chance quem tem bilhões de dólares para pagar a propaganda nas mídias.
Gamal Abdel Nasser praticamente nunca foi eleito nos 16 anos que esteve á frente do governo do Egito. No entanto, era adorado pelos egípcios. As tarefas que ele executou, o conteúdo e o caráter de classe do Estado e do governo egípcios eram claramente antiimperialistas. Sua morte em 1970 levou um milhão de egípcios às ruas em seu funeral e outros milhões em todas as capitais árabes. Ele nunca foi chamado de ditador pela esquerda e pelo imprensa árabe.
Como diz Juan Cole em seu blog, o “estado nasserista com todos os seus problemas, teve legitimidade porque era visto como um estado para a grande massa dos egípcios, tanto para os de fora como os de dentro do país; o atual de Mubarak, é visto no Egito como um estado para os outros: EUA, Reino Unido, França e Israel e é um estado para poucos – os ricos e neoliberais”.
Isso vale para o presidente Bashar El Assad, da Síria. Ele “herdou” o governo de seu pai, Hafez El Assad, morto em 1999 (governava desde 1970). A Síria hoje é o país que mais enfrenta o imperialismo norte-americano, ao lado do Irã. Na sua capital, Damasco, grupos revolucionários, de esquerda, progressistas e patrióticos mantém livremente seus escritórios. É o país árabe que mais apoia a causa palestina. No entanto, as eleições ocorrem nos mesmos moldes que as egípcias. Não há comparação de um com o outro.
Na ciência política marxista costumamos dizer que o que assegura o caráter de classe de um estado pode ser respondida quando a seguinte questão estiver clara: contra quem (qual classe social) e a favor de quem age a máquina do estado. Respondido isso, sabe-se o caráter de classe de um estado. Não estou entre os que veem na democracia um valor universal.

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